29/02/2016

A saga para encontrar Getúlio Vargas

Senhora Arailde Horibe, antoninense fazendo o passeio de trem: uma presença e tanto.



Num dia de trabalho como Guia de Turismo  no Trem da Serra Verde Express, entre tantos passageiros estava uma senhora com seus 90 anos de idade e que tinha uma bela história para contar. Ela nasceu em Antonina, foi a primeira descendente dos imigrantes japoneses a se casar com um "não japonês".
Entre tantas histórias de luta da familia,  ela contou sobre o irmão Milton Horibe, que esteve na missão dos escoteiros, em 1941, de levar uma carta para o então presidente da República Getúlio Vargas,  pedindo a reabertura dos  escritórios marítimos da Companhia de Navegação Costeira e Lloyd Nacional de Antonina que tinham sido fechados por ordem presidencial.


Milton Horibe, irmão da Sra  Arailde Horibe entregando a carta 



Abaixo, matéria do jornal Gazeta do Povo contando mais detalhes:

Mil e quatrocentos quilômetros a pé de Antonina até o Rio de Janeiro em quase 45 dias. Essa foi a saga de cinco escoteiros do litoral do Paraná no começo da década de 40. Era dia 16 de dezembro de 1941 quando o grupo rumou à então capital federal com a missão de entregar uma carta de apelo ao presidente Getúlio Vargas. Naquele ano, os escritórios marítimos da Companhia de Navegação Costeira e Lloyd Nacional de Antonina tinham sido fechados por ordem presidencial.
As duas empresas representavam cerca de metade da movimentação de cargas e de mão de obra portuária na cidade. O desemprego e o desespero bateram em centenas de famílias antoninenses. Para cobrar uma atitude do mandatário do país, Manoel Eufrásio Picanço, que era o chefe dos Escoteiros da cidade, convocou a tropa para uma missão nada fácil. Ele teria dito, segundo um artigo escrito em 1971 por Admaro Santos: “Só vocês, meninos, poderão sensibilizar o mandatário da nação, a ponto de fazer Sua Excelência ouvir os clamores do nosso povo. Mas vocês terão de ir a pé até lá”.
Incrédulos, os rapazes que tinham entre 15 e 18 anos se entreolharam e desconfiaram. Mas era verdade. Era preciso apelar para que Vargas voltasse atrás de sua decisão. Duas comissões já haviam tentado em vão contato com o presidente. A situação da cidade era calamitosa. A tristeza e melancolia imperavam nas ruas de Antonina. Alguma alternativa deveria surgir. Nada melhor que uma ação que sensibilizasse o então presidente do Brasil.
Pela antiga estrada da Ribeira, os cinco meninos fardados de escoteiro caminharam rumo à capital federal. Sofreram com chuva, fome, calor, frio e calos nos pés. Sem falar dos riscos de picadas de cobras ou até serem atacados por outros animais selvagens. Os rapazes Milton Horibe, Manoel Antônio de Oliveira, Antônio José Gonçalves, Lídio Santos Cabreira e Alberto Shtorach encararam os seus medos e munidos com uma mochila com roupas, alimentos e dinheiro partiram com a aguardada carta em mãos.
Eles chegaram ao destino somente no dia 30 de janeiro do ano seguinte. Foram quase 45 dias longe dos familiares e de suas casas caminhando entre matas, estradas poeirentas, pontes e cidades.
Mas a jornada ainda estava longe de terminar. Era preciso entregar a dita carta a Vargas. A situação não era das mais fáceis. Como conseguir uma agenda com o homem mais importante do país naquele período? Tiveram de se alojar mais alguns dias no Rio de Janeiro esperando serem recebidos por Vargas. Somente no dia 19 de fevereiro, depois de contar com apoio de personalidades influentes no meio político, foi que Horibe entregou a Vargas a tão aguardada carta.
Ao receber a mensagem das mãos do escoteiro Milton Horibe, o presidente atendeu parte das reivindicações, mandando reabrir os escritórios das empresas, que por mais alguns anos mantiveram a principal fonte de renda da cidade.
Barracas e dinheiro para a travessia
A jornada dos cinco escoteiros começou com um desfile pelas vias de Antonina às 13 horas do dia 16 de dezembro de 1941. No dia anterior, como consta no diário escrito por um dos escoteiros, Lídio Cabreira, foi feita toda a checagem do material que iria ser transportado durante a saga. Levaram uma quantia de 40 mil réis para o custeio da travessia. Além disso, cada um carregava cifrões que variavam de 10 mil a 20 mil réis para emergências no meio do caminho.
Cantil, faca, machadinho, lanterna, barraca e alimentos eram obrigatórios. Cada um deles carregava cerca de 20 a 25 quilos de apetrechos. O povo de Antonina estava emocionado com a coragem dos jovens. Segundo o diário de Cabreira, o burburinho tomou conta da cidade. Algumas pessoas achavam que os jovens não chegariam vivos ao destino, outros que tudo aquilo era uma loucura. Alguns apostavam que tudo daria certo. “Numa curva da Estrada da Graciosa acenamos o último adeus para aqueles que ficaram”, diz o relato.
A dificuldade na empreitada não foi pouca. Eles tiveram de beber água que estava acumulada em poças formadas por pegadas de cavalo. “Com algodão na boca para filtrar aquela água amarela cheia de mosquito saciamos nossa sede”, consta no diário. Esse episódio aconteceu no dia 19 de dezembro.
Quando chegaram no Rio de Janeiro, foram procurar o general Heitor Borges, que era presidente da União Brasileira dos Escoteiros, que cuidou deles, mantendo-os em um albergue dentro do Exército até ajudar na concretização do encontro com Vargas em Petrópolis no dia 19 de fevereiro.
http://www.gazetadopovo.com.br/vida-e-cidadania/a-saga-para-encontrar-getulio-vargas-eh1y8ote9vyyqlkuowx40tydq
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